A Amazônia do Amapá, com sua rica biodiversidade, é um verdadeiro celeiro de saberes que atravessam gerações. As comunidades locais, imersas em um ambiente onde os rios são as principais vias de transporte e os quintais funcionam como farmácias naturais, preservam um conhecimento popular que é essencial para a saúde e o bem-estar. Essa relação íntima com a natureza reflete não apenas uma busca por cura, mas também um forte senso de identidade e pertencimento.
Entretanto, a integração desses saberes tradicionais com a medicina moderna ainda enfrenta desafios. A preservação das raízes culturais da Amazônia se apresenta como uma alternativa promissora, capaz de unir acessibilidade, inovação e valorização dos povos que habitam essa região. É neste contexto que o Laboratório de Fármacos da Universidade Federal do Amapá (Unifap), sob a coordenação do professor doutor José Carlos Tavares, se destaca ao buscar transformar o conhecimento ancestral em soluções científicas para problemas de saúde.
Desde sua chegada à Unifap em 2005, Tavares tem se dedicado a estudar as plantas da biodiversidade amazônica em busca de medicamentos que possam beneficiar a população. Ele carrega consigo memórias de uma infância em um lar que valorizava o uso de plantas medicinais, o que o inspirou a comprovar cientificamente o que as comunidades já conhecem há tempos. “Naquela época, não havia o SUS. Tratávamos nossas doenças com o que tínhamos ao nosso alcance”, recorda.
Um dos focos do laboratório é o desenvolvimento de uma pomada à base de jucá, que se mostra promissora no tratamento do pé diabético, uma complicação grave do diabetes. O jucá, uma planta comum na região, é tradicionalmente utilizado como cicatrizante e, agora, está sendo estudado em profundidade. Os resultados iniciais indicam que ele possui propriedades anti-inflamatórias e regenerativas, essenciais para a cicatrização de feridas.
As pesquisas, que começaram em 2024, já demonstraram avanços significativos, com um paciente que estava em risco de amputação apresentando melhora após o uso de um spray feito com jucá. O sucesso do tratamento, segundo Tavares, está na combinação de diferentes produtos desenvolvidos para atuar em várias etapas do processo de cicatrização.
O trabalho do laboratório também resultou na criação de um ambulatório especializado em pé diabético, inaugurado em maio no Hospital Universitário (HU). Com mais de 100 atendimentos realizados, a iniciativa não só monitorará a evolução das lesões, mas também oferecerá um atendimento multidisciplinar, incluindo suporte psicológico e nutricional aos pacientes. Essa abordagem integral é fundamental para garantir que os amapaenses recebam cuidados adequados durante a recuperação.
Com esses esforços, a Unifap não apenas avança nas pesquisas, mas também reafirma a importância do conhecimento tradicional, transformando a rica biodiversidade da Amazônia em soluções inovadoras para a saúde pública. Assim, a união entre ciência e cultura se torna uma esperança renovadora para muitos que dependem do sistema de saúde.
Crédito da imagem: Medicamentos à base de Jucá são desenvolvidos no Amapá



